Sonho a Igreja que Jesus sonhou e continua a sonhar, a que inaugurou e da qual continua a ser o permanente Princípio. Sim, a Igreja que Cristo continua a formar, chamar, inspirar e conduzir, porque um Ressuscitado é sempre nosso contemporâneo!Sonho a Igreja que Cristo continua a sonhar, livre das infidelidades da Antiga Aliança, leve e fresca como a Água Viva do Espírito que a vivifica, livre e firme como a Palavra que a molda.
Sonho a Igreja como Comunhão Universal de Comunidades, contextos privilegiados para a emergência da Palavra de Deus e para o acolhimento do Espírito Santo, para o crescimento permanente da maturidade da Fé, da fortaleza da Esperança e da seriedade do Amor.
Sonho a Igreja como Resto Fiel, minoria profética e memória subversiva daquele Messias morto há 2000 anos fora dos muros sagrados da tão religiosa e santa Jerusalém!
Sonho a Igreja continuadora de todos aqueles que foram fiéis a Deus e ao Homem ao longo de toda a História da Revelação.
Acima de tudo, sonho a Igreja que sempre está urgente de sonhadores para continuar a acontecer, livres das “regras da sensatez” institucional que está sempre disposta a sacrificar a vitalidade da Verdade em nome da tranquilidade da instituição, e livres também do “medo senil e servil” que mata toda a diferença e novidade que ponha em causa as glórias do passado, ainda que falsas, ainda que feias.
Sonho a Igreja de Cristo, e não a igreja de mais ninguém!
Sonho a Igreja dos que o amam acima de si próprios, dispostos a viver e a morrer por ele, sempre prontos a sofrer nas cruzes secularmente preparadas para os hereges, na certeza de que essas cruzes injustas e infiéis só se destroem colocando lá as costas!
Sonho a Igreja na qual Cristo me faz acreditar!
Acredito numa Igreja de Caminhantes, os caminhantes da Liberdade, como aquele povo que se viu livre do Egipto pelo Amor de predilecção de Deus.
A Igreja dos Caminhantes é aquela em que as comunidades são espaços pessoais de libertação, em que acontece a destruição interior de todos os “faraós” opressores e a marcha da Liberdade pelo “deserto” das dúvidas e da procura até à “Terra Prometida” que é saborear um Novo Sentido para viver, pleno, largo, sereno, perene, fonte de paz e fonte de fortaleza.
Acredito numa Igreja de Profetas, na dinâmica comunitária daqueles que estão implicados na Palavra que proclamam e celebram, aqueles que assumem a totalidade das consequências da sua Fé, da sua Esperança e do seu Amor.
A Igreja dos Profetas é aquela que dá à luz gente capaz de morrer por Cristo, é a Igreja indomável diante dos poderes do mundo, contexto comunitário de amadurecimento pessoal de homens e mulheres que não se deixam domesticar pelas “falinhas mansas” de todos os anti-evangelhos de rosto sedutor que por aí andam.
Acredito numa Igreja de Salmistas, escola da beleza e da alegria que se inspira na Palavra de Deus e na Verdade de Cristo.
A Igreja dos Salmistas é aquela que em todos os tempos, lugares e situações procura as melhores formas de dizer o Mistério da Fé, o louvor e a gratidão, de maneira a que os Homens possam entender e acolher. É a experiência comunitária que possibilita aprender a linguagem do Coração, feita de espontaneidade, intimidade, afectividade e verdade, segredos essenciais para uma comunicação eficaz da Fé.
Acredito numa Igreja de Discípulos, aquela em que a atitude fundante de todas as opções e escolhas é a escuta orante e sem preconceitos da Palavra do Mestre, fonte permanente de Sabedoria, novidade e apelos de mudança.
A Igreja dos Discípulos é aquela em que ninguém se considera superior a ninguém e as comunidades se estruturam de maneira fraterna. O único Mestre é Jesus Cristo e a única Sabedoria que se procura é a do Espírito Santo. Os irmãos que estão especialmente capacitados para explicar o Mistério da Fé e as maravilhas do Amor de Deus fazem-no como um serviço alegre e um Carisma comunitário para o bem de todos, e não como forma de superioridade ou domínio sobre os outros.
Acredito numa Igreja de Apóstolos, homens e mulheres que se põem a caminho para anunciar o Evangelho aos seus irmãos – até com palavras se for preciso! – e que se tornam eles próprios Caminho do Evangelho para todos.
A Igreja dos Apóstolos é aquela em que as comunidades não se fecham em si próprias mas se tornam Escolas de Missionários, comunidades vivas que assumem o apelo a ser “sal, luz e fermento” do Reino de Deus no mundo, em que os baptizados são evangelizados e os evangelizados se sentem provocados a ser evangelizadores.
Acredito numa Igreja de Evangelistas, aquela em que as comunidades entendem a escuta da Palavra de Deus como actualização comprometida dessa Palavra de modo a que ela seja sempre Evangelho – Boa Nova – no concreto de cada tempo, lugar e situação.
A Igreja dos Evangelistas é aquela que permanentemente actualiza a sua linguagem para proclamar o Evangelho de Jesus com a mesma força, audácia, profecia e actualidade dos primeiros tempos, aquela que não se deixa cristalizar em fórmulas e conceitos que já nada dizem, mas se recria no esforço de ser continuamente fiel ao Evangelho do Amor de Deus revelado e realizado em Jesus, que não pode ser nunca “letra morta” mas Palavra viva e vivificante pelo vigor e agilidade do Espírito Santo.
Acredito numa Igreja de Pecadores e Imperfeitos, aqueles para quem Deus pode ainda ser Graça, aqueles que se sentem tantas vezes pisados e desprezados pelos “puros e perfeitos” que já há uns anos também maltrataram o Mestre.
A Igreja dos Pecadores e Imperfeitos é aquela em que as comunidades não conhecem divisões entre puros e impuros, aquelas em que, sem ingenuidades nem mediocridades, cada um é aceite tal como é e amado pela Verdade que procura no seu Coração. Para os Pecadores as iniciativas amorosas de Deus são sempre Graça e de graça, e não pagamentos divinos dos seus méritos. Para os Imperfeitos aos olhos dos que se consideram “perfeitos”, a Salvação é o Dom maior e mais admirável do nosso Deus, e não a recompensa eterna pelas suas virtudes. A Igreja dos Pecadores e dos Imperfeitos é aquela
Acredito numa Igreja de Pobres e Pequenos, aqueles que são capazes de perceber que a Vida é a sua maior riqueza, os que não têm os dias sempre cheios demais para dar importância quotidiana à Palavra de Deus, os que não estão sempre a pensar no que podem ganhar ou perder em cada opção que haja a tomar.
A Igreja dos Pobres e Pequenos é aquela em que as comunidades não querem possuir nem dominar, onde cada um está disponível para partilhar com os outros o que tem, sabe e é. Os Pobres são aqueles que não se recusam a aderir aos projectos de Cristo por medo do que possam perder ou ter que deixar
Na Igreja dos Pobres e Pequenos todos são profundamente Ricos e Grandes, porque recupera-se o gosto pelas coisas simples e o maravilhamento pelas belezas não maquilhadas da Vida e da Criação. A Palavra de Deus e o Espírito Santo não deixam que se embruteça o Coração com a brutidade da presunção e da vaidade.
Acredito numa Igreja de Pagãos, aquela
A Igreja dos Pagãos é aquela
A Igreja dos Pagãos é aquela em que o Espírito Santo tem toda a liberdade para circular “como o vento, que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, mas escuta-se a sua voz”. É também aquela
Acredito num Igreja de Mártires, homens e mulheres de Fé madura que já compreenderam que a única maneira de dar provas dela é o Testemunho.
A Igreja dos Mártires não se enreda em filosofias baratas nem se põe a discutir os assuntos do Evangelho e da Verdade como se defendesse uma ideologia. É a Igreja de comunidades sempre a caminho da Verdade maior da Vida que é a Coerência, onde não se usam “slogans” nem frases feitas como remédios milagrosos para as agruras da Vida.
Nesta Igreja dos Mártires aprende-se a passar constantemente do Luto à Luta, na certeza de que Deus está sempre com os Seus, mas nunca no lugar deles! Os Mártires são os que se comprometem no Testemunho da Verdade até que doa, até que sangre. O único medo que realmente lhes assusta o Coração é o de viverem uma Vida absurda. Tudo o resto são adversários menores que acabam por ser destruídos pelo Amor, ainda que essa fidelidade faça alguns passar pelo sofrimento e pela morte. Que importa?! A Palavra definitiva da Vida pertence a Jesus Cristo, o Vencedor da Vida e da Morte, e essa Palavra é “Ressurreição”!
Repudio a igreja dos falsos profetas, aqueles que ousam pôr na boca palavras que ainda não lhes passaram pelo Coração, os que vivem à custa de um Deus que não amam nem servem.
A igreja dos falsos profetas é o submundo apodrecido dos que se servem daquele Deus a Quem dizem servir, os que usam o Seu Nome para procurar os seus próprios interesses, consolações e riquezas, os que não estão implicados nas palavras que debitam, quase sempre iguais, nem são para ninguém Palavra Viva das palavras que dizem!
Repudio a igreja dos fariseus, aqueles que se consideram a medida perfeita de Deus e dos Homens, os que se têm a si próprios como critério para falar de Deus e avaliar os outros.
A igreja dos fariseus é a forma mais subtil de ser Anticristo, muitas vezes até
Repudio a igreja dos sacerdotes de templo, a casta que se considera superior à “reles gente”, os insubstituíveis da relação de Deus com o Seu povo, homens vaidosos e inchados que quase sempre se tornam um dos extremos da mediocridade: inúteis ou mercenários.
A igreja dos sacerdotes de templo é aquela em que os peritos do culto querem mandar e perceber mais que o Espírito Santo quando se trata da relação do Homem com Deus. O cumprimento das normas substitui facilmente a Verdade, os ritos ocupam o lugar do Amor e a função do sacerdote esgota toda a acção da comunidade.
Repudio a igreja dos doutores da lei, aquela em que se pensa que a Vida está escrita nos livros e a Verdade está só na mão de dois ou três “iluminados”.
A igreja dos doutores da lei é aquela que tem medo da desinstalação, tem medo da liberdade do Espírito Santo, das Suas inspirações e provocações. Os doutores da lei são os que permanentemente querem impor as suas verdades a Deus e aos outros. São os que se deixam cair na tentação de reduzir a Palavra de Deus às verdades curtas de uma doutrina de Catecismo, e querem substituir o Espírito Santo pelas normas de um Direito Canónico.
Repudio todas as formas de ser igreja que não proclamam nem constroem a Igreja de Cristo, a dinâmica comunitária por ele sonhada e iniciada com aqueles Doze pobres que não viriam nunca a ter outra autoridade senão a de dar o próprio sangue pelo Mestre Ressuscitado!Apaixona-me a ousadia de todos os que se confiam a causas maiores que eles próprios… Sim, acredito que aí reside o segredo da mais profunda Liberdade!
A Liberdade tem a ver sempre com a descoberta enamorada da Verdade! Jesus disse “A Verdade vos fará Livres!” E Paulo gritava aos quatro ventos: “Fomos libertados para a Liberdade!”
Esta Liberdade que nos torna servos dos “pequenos” e acusadores dos “grandes”…
Sorrio de alegria ao pensar a missão da Igreja como prolongamento da missão de Jesus, num ritmo comunitário em que o Espírito Santo faz acontecer a Palavra no Coração dos irmãos, ilumina a consciência para discernir os Sinais dos Tempos e fortifica os laços fraternos de modo a que cada Comunidade se torne “Frente de Fraternidade” capaz de derrotar tantas “Frentes de Iniquidade” que esmagam os pequenos que lhes aparecem pelo caminho e se alimentam dos seus despojos…
Apaixona-me a Igreja de Jesus que entende qual é o seu lugar próprio na história, e não cai nos mesmos erros da Antiga Aliança, quando tantos confundiam a esperança da chegada do Reino de Deus com a Restauração do Reino de David!
Assim também tantos nos últimos séculos confundiram o Reino de Deus anunciado e inaugurado por Jesus com a Igreja! Mas o Reino de Deus é maior que a Igreja, ultrapassa as suas fronteiras…
O Reino de Deus é uma Nova Humanidade, não uma nova religião!
O lugar da Igreja no mundo é o do Serviço! Ao serviço de Deus e ao serviço do Mundo, sem fronteiras nem preconceitos.
Já reparaste que à porta de um farol está escuro?! Assim como um farol não existe para se iluminar a si próprio, assim também a Igreja não existe em função de si própria, mas em função da difusão do Reino de Deus!
Por isso é que Jesus dizia aos seus: “Vós sois a LUZ do mundo, vós sois o SAL da terra, vós sois o FERMENTO que leveda a massa…”
SHALOM